4.6.06

Aula nº 19 - "Manobras na Casa Branca"

Realizado por Barry Levinson em 1997, Manobras na Casa Branca (Wag the Dog) é um filme satírico protagonizado por conhecidos actores como Dustin Hoffman (Stanley Motss), Robert de Niro (Conrad Brean) e Anne Heche (Winifred Ames).

A menos de duas semanas das eleições presidenciais, eclode um escândalo na Casa Branca: o Presidente dos EUA é acusado por uma adolescente (ainda por cima escuteira.) de "conduta sexual indecorosa", um "fait-divers" que poderá pôr em xeque a sua reeleição, numa altura em que as sondagens lhe dão uma confortável vantagem de 17%...
Para evitar o descalabro, é preciso abafar o caso e manter a opinião pública "distraída" durante onze dias. É então chamado de emergência Conrad Brean (Robert De Niro), um consultor político da confiança do Presidente. A solução encontrada é simples: "fabricar" uma guerra "virtual" a que o chefe de estado americano possa depois pôr cobro, rápida e heroicamente.
Apesar de não ser fácil encontrar um "inimigo", a escolha acaba por recair na aparentemente inofensiva. Albânia. Mas é preciso mais, falta concretizar a ideia, dar-lhe espessura. Por isso, Brean e a conselheira de estado, Winifred Ames (Anne Heche), recrutam Stanley Motss (Dustin Hoffman), um espalhafatoso produtor de Hollywood habituado a pôr em cena grandes espectáculos.
Juntos - e com a preciosa colaboração de uma lenda da música "country" (Willie Nelson) e de um especialista em "marketing" (Dennis Leary) - vão construir uma gigantesca encenação, um logro que a cada passo se torna mais rocambolesco: dos relatos das missões do misterioso (e inexistente) bombardeiro B-3 e das actividades militares suspeitas (e, claro, falsas) de terroristas albaneses às canções e mártires forjados, nada é demasiado inverosímil, porque, acima de tudo, o espectáculo tem de continuar.

A guerra com a Albânia pareceu-lhes ideal para distrair as atenções do escândalo sexual que envolvia o Presidente, até porque, tal como foi dito no filme “recordamos os slogans mas não as guerras”. Trata-se aqui de inventar a realidade, de recorrer a manobras de diversão num jogo que é levado até às últimas consequências.
A dimensão de uma guerra não pode ser comparável à dimensão de um escândalo sexual. Conrad Brean sabia perfeitamente que um acontecimento destes iria distrair as atenções do povo americano em vésperas de eleições. Rapidamente o escândalo sexual saiu das primeiras páginas para dar lugar a notícias da guerra. A estratégia não poderia ser melhor…além do escândalo ter perdido o impacto, o Presidente levava o bónus de poder “restituir a paz” ao país.
Durante todo o filme o Presidente nunca aparece e a única decisão que toma é irrelevante e ridícula: a cor do gato que irá aparecer na manipulação televisiva. Esta subtileza é uma metáfora da sua incapacidade. O Presidente que não passa de uma imagem, de uma figura obediente aos seus “conselheiros de comunicação”.

Tudo estava a correr bem até ao momento em que a CIA descobriu que tudo não passava de uma manobra política. A guerra tinha acabado documentava um canal de televisão. Era agora necessário criar uma nova estratégia para o plano não ir por água abaixo.

A guerra `acaba` antes das eleições e a popularidade do presidente começa a cair, mas logo surge outra idéia de continuar com a farsa : segundo eles, um soldado americano ficou preso nas linhas de batalha da Albânia e o presidente não pretende medir esforços para salvá-lo de lá. Eles apelidam o soldado de Old Shoe ou Sapato Velho e criam em cima dele um verdadeiro marketing político para alavancar os números do presidente. Esse `herói` de guerra, na verdade é um perigoso maníaco sexual, acusado de estuprar uma freira e está preso já faz doze anos e mal conhece a montagem pela qual é submetido. Devido a uma morte banal por causa de sua conduta sexual anormal, o que parecia bom torna-se melhor ainda e ele chega a Nova York morto e é saudado como um digno herói de guerra que morreu defendendo o país.

Sátira política? Obviamente que sim. O filme lança um olhar cáustico sobre as relações entre os media e a política e a forma como os primeiros podem ser manipulados em favor da segunda, moldando assim a bel-prazer a opinião pública. A mensagem é simples (e assustadora): hoje em dia, a fronteira entre facto e ficção é cada vez mais ténue e, tecnologicamente, as possibilidades de “fingimento” são quase intermináveis. Há, de resto, uma sequência de antologia que mais não faz do que realçar isso mesmo — na placidez de um estúdio de cinema, uma actriz agarrada a um pacote de batatas fritas pode ser transportada, digitalmente, para um cenário bélico dantesco e, por momentos, transformar-se numa jovem albanesa em fuga, gatinho branco ao colo, de uma aldeia em chamas…

Conrad Brean é o protótipo “spin doctor”. Ele tem a habilidade inegável de manipular políticos, a imprensa e, acima de tudo, o povo americano. É discreto e leva a sério a sua função – é um “resolvedor” de todos os problemas que possam surgir ao Presidente.
O mesmo já não se pode dizer de Stanley Motss – apesar de todas as advertências que lhe haviam feito, ele queria o reconhecimento do seu trabalho. Mostra-se assim inconformado por o seu esforço ter sido atribuído a dois actores novatos na propaganda de campanha do Presidente e decide contar a verdadeira história, mas isso era impossível, por se tratar do mais puro segredo de Estado…

Este filme de ficção traz consigo uma inevitável comparação com o caso Clinton-Lewinski (escândalo Monicagate). No entanto, Levinson confirmou a ausência de um ataque directo à administração Clinton: “O filme não tem a ver com Clinton nem com nada de específico na sua administração. É mais sobre os media e a manipulação diária da realidade, o modo como as coisas são fabricadas, o que vai sendo cada vez mais sinistro devido aos avanços tecnológicos. Ver já não é crer.”

A manipulação a que assistimos neste filme não é comparável àquela que vimos no filme Boris. Trata-se de uma manipulação grave, premeditada por um spin doctor (neste caso ficcional).

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