28.5.06

Aula nº 18 - "Spin Doctors"


A apresentação de uma parte da realidade – aquela que interessa – pressupõe já uma comunicação manipulada por alguém para servir determinado interesse.

No entanto, a sofisticação do conceito de manipulação traz-lhe um sentido distinto do que foi referido anteriormente: manipulação como invenção, fabricação de factos que na realidade não aconteceram.
Este tipo de manipulação, em geral, aplica-se a questões de maior gravidade, ou seja, quanto mais ambiciosa e difícil for a situação a resolver mais necessidade existe de recorrer a este tipo de manipulação.

“Spin” significa desviar a trajectória. Levar a opinião pública para um caminho para o qual ela não iria se não existisse uma intervenção. A opinião pública é influenciada através de informações favoravelmente manipuladas que visam a vitória de determinado candidato em época de eleições.

Como sabemos que, nos dias correm, não há ingenuidade quando se trata de promover a imagem dos governos, parece que a ilusão da transparência é a nova táctica para recredibilizar os “spin doctors”, baixar as defesas dos jornalistas e da opinião pública e conseguir um “spin” mais perfeito, uma encenação mais convincente. Ao negarem o seu próprio papel, os assessores mediáticos e os homens por trás do marketing político lançam-se à conquista do terreno estratégico que têm vindo a perder. Ou seja: criando a ilusão de que pouco interferem na informação e na imagem do governo, os mediadores da comunicação governamental reforçam a eficácia das suas técnicas, pois convencem o público de que o que parece, é. Mas no fundo, como dizia Nick Assinder, o discurso do “no spin” é apenas “another bit of spin from the kings of spin”.

Os “spin doctors” têm características secretas e na maioria dos casos ninguém assume esta actividade desregulamentada - obviamente por se tratar de um ‘trabalho sujo’ baseado em vigarices que não podem ser apregoadas publicamente porque, além de tudo, são condenáveis. Não se trata já de um assessor de imprensa mas sim de alguém que sem olhar a meios serve o seu cliente utilizando, se necessário, os golpes mais baixos. Um “spin doctor” não deixa impressões digitais directas e não contacta com a comunicação social. “Homem do pormenor e especialista em golpes baixos, é um pioneiro das novas tecnologias”. (revista Visão de 13 de Novembro de 2003)
Assim, o termo consultor de tecnologia política (inserido na área das Relações Públicas) é um eufemismo para manipulador, para “spin doctor”.

Características de um Spin Doctor:

- Discreto
- Lugar que ocupam na hierarquia é irrelevante
- A actividade não é regulamentada e a sua existência pode até ser negada
- Tem de ter relação com o poder
- Transparência não existe (utilizam campanha negra sempre que possível)
- Comunicação Social tem de ser dominada

Os dez mandamentos do “spin doctor”:

- Haver um só maestro (centralizar a informação)
- Jogar bem (não tolerar fífias)
- A mensagem, nada mais que a mensagem
- Alimentar os meios de comunicação a tempo e horas
- Guardar os bons pedaços (cachas, fugas) para os amigos
- Martelar a informação
- Tomar constantemente o pulso à opinião pública
- Testar e medir cada decisão (grupos de controlo
- Roubar ao adversário os melhores argumentos
- Enfeitar, ameaçar, por vezes bater
(Mandamentos retirados da revista Visão de 13 de Novembro de 2003)

Exemplos de manipulação:

1.

Os meses que precederam a ocupação do Iraque, em 19 de Março de 2003, assistiu-se a uma campanha de manipulação da informação a nível mundial.
As principais agências de comunicação social divulgavam informações provenientes das mais diversas fontes e origens todas num único sentido: sustentarem a tese dos EUA de que a o ditador do Iraque possui armas de destruição maciça.
Em vários países, como Portugal, muitos jornalistas e especialistas em questões militares apoiaram activamente esta campanha preparando a opinião pública para aceitar a inevitabilidade de uma intervenção no Iraque, a fim de acabar com os arsenais e a produção das alegadas armas de destruição maciça.
Um ano depois da ocupação, os governos dos EUA e da Grã-Bretanha reconheciam que estas armas não existiam e que haviam enganado a opinião pública. Acusaram na altura os seus serviços de espionagem de lhes terem fornecido de informações forjadas.

Segundo o jornalista brasileiro, o nível de manipulação da informação pelos meios de comunicação dos EUA continua firme. O grau de manipulação da imprensa dos Estados Unidos relativamente à invasão militar no Iraque «é e foi muito elevado», frisa. «Houve alguns veículos [de comunicação social] que tentaram furar esse comportamento, mas o patriotismo depois do 11 de Setembro, até em função do grau de manipulação que existiu, era tão intenso e tão grande, que os que tentaram criticar essa manipulação ou fazer um jornalismo mais sério, mostrando os factos ao invés de só reproduzir os `releases´ oficiais da Casa Branca, `deram com os burros na água´. Ninguém lhes deu atenção e chegaram mesmo a tachá-los de antipatriotas, de estarem contra o país, de ajudarem os terroristas», recorda o autor.


“Em período eleitoral, os candidatos «vendem-se» aos seus eleitores sob a forma de pastilhas televisivas que substituem as tradicionais profissões de fé.
(…) exércitos de peritos em comunicação de massas põem ao serviço dos candidatos as técnicas mais sofisticadas do marketing publicitário a fim de lhes construir, como a qualquer sabonete, uma «imagem de marca».
Rodeado de «conselheiros de comunicação» muito hábeis, Richard Nixon gastou, em 1968, mais de 20 milhões de dólares em publicidade televisiva com o único objectivo de assegurar que o seu avanço de quinze pontos em relação ao seu rival democrata Hubert Humphrey não baixasse mais do que 1%. E conseguiu-o.
Desde que, em 1989, o regime democrático se universalizou, os conselheiros americanos em marketing político, considerados os melhores do mundo, são recrutados por candidatos de todos os sectores em eleições por todo o planeta. Assim, constata Serge Halimi, «os quatro principais “consultores” das duas campanhas presidenciais vitoriosas de William Clinton – o trio de 1992 (James Carville, Goerges Stephanopoulos e Stanley Greenberg) e o solo de 1996 (Richard Morris) -, mas também o conselheiro de vários parlamentares republicanos, Arthur Finkelstein, universalizaram as suas operações.” (Ramonet, Ignacio, Propagandas Silenciosas - massas, televisão, cinema, Campo das Letras, 1ª edição, Março de 2001, p.p. 74/ 75)

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