Aula nº 18 - "Spin Doctors"
A apresentação de uma parte da realidade – aquela que interessa – pressupõe já uma comunicação manipulada por alguém para servir determinado interesse.
No entanto, a sofisticação do conceito de manipulação traz-lhe um sentido distinto do que foi referido anteriormente: manipulação como invenção, fabricação de factos que na realidade não aconteceram.
Este tipo de manipulação, em geral, aplica-se a questões de maior gravidade, ou seja, quanto mais ambiciosa e difícil for a situação a resolver mais necessidade existe de recorrer a este tipo de manipulação.
“Spin” significa desviar a trajectória. Levar a opinião pública para um caminho para o qual ela não iria se não existisse uma intervenção. A opinião pública é influenciada através de informações favoravelmente manipuladas que visam a vitória de determinado candidato em época de eleições.
Os “spin doctors” têm características secretas e na maioria dos casos ninguém assume esta actividade desregulamentada - obviamente por se tratar de um ‘trabalho sujo’ baseado em vigarices que não podem ser apregoadas publicamente porque, além de tudo, são condenáveis. Não se trata já de um assessor de imprensa mas sim de alguém que sem olhar a meios serve o seu cliente utilizando, se necessário, os golpes mais baixos. Um “spin doctor” não deixa impressões digitais directas e não contacta com a comunicação social. “Homem do pormenor e especialista em golpes baixos, é um pioneiro das novas tecnologias”. (revista Visão de 13 de Novembro de 2003)
Assim, o termo consultor de tecnologia política (inserido na área das Relações Públicas) é um eufemismo para manipulador, para “spin doctor”.
Características de um Spin Doctor:
- Discreto
- Lugar que ocupam na hierarquia é irrelevante
- A actividade não é regulamentada e a sua existência pode até ser negada
- Tem de ter relação com o poder
- Transparência não existe (utilizam campanha negra sempre que possível)
- Comunicação Social tem de ser dominada
Os dez mandamentos do “spin doctor”:
- Haver um só maestro (centralizar a informação)
- Jogar bem (não tolerar fífias)
- A mensagem, nada mais que a mensagem
- Alimentar os meios de comunicação a tempo e horas
- Guardar os bons pedaços (cachas, fugas) para os amigos
- Martelar a informação
- Tomar constantemente o pulso à opinião pública
- Testar e medir cada decisão (grupos de controlo
- Roubar ao adversário os melhores argumentos
- Enfeitar, ameaçar, por vezes bater
(Mandamentos retirados da revista Visão de 13 de Novembro de 2003)
Exemplos de manipulação:
1.
“Em período eleitoral, os candidatos «vendem-se» aos seus eleitores sob a forma de pastilhas televisivas que substituem as tradicionais profissões de fé.
(…) exércitos de peritos em comunicação de massas põem ao serviço dos candidatos as técnicas mais sofisticadas do marketing publicitário a fim de lhes construir, como a qualquer sabonete, uma «imagem de marca».
Rodeado de «conselheiros de comunicação» muito hábeis, Richard Nixon gastou, em 1968, mais de 20 milhões de dólares em publicidade televisiva com o único objectivo de assegurar que o seu avanço de quinze pontos em relação ao seu rival democrata Hubert Humphrey não baixasse mais do que 1%. E conseguiu-o.
Desde que, em 1989, o regime democrático se universalizou, os conselheiros americanos em marketing político, considerados os melhores do mundo, são recrutados por candidatos de todos os sectores em eleições por todo o planeta. Assim, constata Serge Halimi, «os quatro principais “consultores” das duas campanhas presidenciais vitoriosas de William Clinton – o trio de 1992 (James Carville, Goerges Stephanopoulos e Stanley Greenberg) e o solo de 1996 (Richard Morris) -, mas também o conselheiro de vários parlamentares republicanos, Arthur Finkelstein, universalizaram as suas operações.” (Ramonet, Ignacio, Propagandas Silenciosas - massas, televisão, cinema, Campo das Letras, 1ª edição, Março de 2001, p.p. 74/ 75)
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